Boletins

Economistas recomendam austeridade às famílias

Publicado em 15/06/2020 - 06:33 Por Gilberto Costa - Repórter da Agência Brasil - Brasília

A queda de renda dos brasileiros em meio √ crise econ√īmica provocada pela pandemia de covid-19, preocupa os economistas. As raz√Ķes para a diminui√ß√£o do poder aquisitivo est√£o no desemprego no mercado formal (com carteira assinada), na desocupa√ß√£o de trabalhadores informais (sem registro) e na redu√ß√£o negociada de rendimentos.

Os efeitos s√£o sentidos na queda do poder aquisitivo e na capacidade de consumo das fam√≠lias. Conforme mostrado pela Ag√™ncia Brasil, o percentual de fam√≠lias com d√≠vidas, em atraso ou n√£o, chegou a 66,6% em abril deste ano - recorde desde janeiro de 2010. As proje√ß√Ķes a m√©dio prazo tamb√©m despertam aten√ß√£o. A Organiza√ß√£o para a Coopera√ß√£o e Desenvolvimento Econ√īmico (OCDE) prev√™ que os brasileiros possam chegar at√© 8% mais pobres em 2021, na compara√ß√£o com 2019.

"√Č um momento muito complicado, as fam√≠lias j√° estavam endividadas. A redu√ß√£o de renda √© muito grave porque h√° pessoas passando necessidade", diz o economista Ronalde Lins. "Quem perdeu o emprego n√£o vai conseguir recuperar em curto prazo, mesmo que aceite sal√°rio mais baixo", afirma Newton Marques, tamb√©m economista.

O presidente do Conselho Regional de Economia do Distrito Federal, C√©sar Bergo, avalia que o comprometimento dos or√ßamentos dom√©sticos e o desemprego se agravam com os riscos √ sa√ļde, que exigem reclus√£o. "A pessoa n√£o tem dinheiro, ainda vai ficar doente? O melhor √© cuidar da sa√ļde", afirma, acrescentando que "n√£o se esperava tanto tempo nesse per√≠odo de isolamento". Racionaliza√ß√£o de gastos

Nenhum economista prescreve receita m√°gica ou ad hoc (express√£o latina cuja tradu√ß√£o literal √© "para isto" ou "para esta finalidade") como descreve Bergo. Em meio √ recess√£o econ√īmica, a bula prev√™ mais austeridade. As fam√≠lias precisam de "mais disciplina e racionaliza√ß√£o de gastos. √Č quest√£o de fechar o caixa e direcionar recursos. A despesa tem que estar dentro do or√ßamento", recomenda.

O presidente do Conselho Regional de Economia frisa, no entanto, que "o momento é de fazer foto, mas enxergar com a luneta. Tem que olhar o futuro. O importante é ganhar tempo. A gente sabe que a pandemia não vai durar para sempre".

O economista Ronalde Lins também diz que "não existe momento eterno sem dinheiro, sem recurso financeiro." Por ora, ele orienta as famílias a não fazerem novos compromissos, focar no atendimento às necessidades básicas, como alimentação, renegociar dívidas e prolongar pagamento. Abra o jogo: diga não tenho dinheiro".

Lins admite, porém, que a negociação "é difícil" no momento. "Dizer que não vai pagar para quem tem a receber é outro complicador. Uma bola de neve. A não paga B, B não paga C, e assim a economia quebra".

Ronalde Lins √© consultor de empresas privadas e observa que seus clientes sofrem com percal√ßos para obter novos empr√©stimos ou rever condi√ß√Ķes de antigas opera√ß√Ķes de cr√©dito.

"Os bancos estão fazendo propaganda que não estão cumprindo, ou beneficiando poucos. Todos os bancos estão dizendo que têm recursos. Infelizmente, os bancos não têm tido esse compromisso. Diversos clientes meus, pessoas jurídicas, não conseguiram recursos com benefício de taxa mais baixa e prolongamento de prazo. Estão colocando muita dificuldade".

Segundo ele, a situação é ruim para as empresas e para as famílias. Apesar de quedas recentes, as taxas cobradas pelos bancos estão bem acima do que o Banco Central estabelece para a Selic (3% ao ano). Entre março e abril, a taxa de juros total do rotativo do cartão de crédito desceu de 327,1% em março para 313,4% em abril. No cheque especial, a redução dos juros foi de 130% para 119,3%.

Nesse cen√°rio, de "taxas elevadas e absurdas", o economista Newton Marques espera novas decis√Ķes macroecon√īmicas e que os bancos negociem. "A sociedade tem o direito de exigir medidas concretas. √Č preciso abrir os cofres. N√£o tem outra sa√≠da em qualquer pa√≠s do mundo. √Č momento de guerra", define.

Além do alto custo para famílias e empresas tomarem dinheiro emprestado, Marques aponta que há exigências de garantias que não podem ser atendidas. "Os bancos não podem fazer análise de risco exigente. Quem está precisando de dinheiro vai sucumbir a critérios rigorosos", salienta.

Fonte:Agência Brasil

https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2020-06/economistas-recomendam-austeridades-familias